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sábado, 17 de outubro de 2020

Minha mãe deu a volta ao mundo, entre bordados, linhas e agulhas!

 

Tempo, tempo, tempo!!

Passei um tempo para abrir caixas, gavetas, armários. Mas, já estou voltando!

Até sabia o que iria encontrar, também sei que em todo tempo a saudade será forte e densa. Entre pensamentos e lágrimas lembrei que um certo dia minha mãe pediu que eu fizesse uma busca de um livro para ela nos sites de bordado. Ela sempre muito sabida e sagaz, me disse que tinha visto no canal de artesanato a propaganda de um livro que ela imaginou e não sabia que existia. Era um finalzinho de tarde de conversa, como sempre tivemos, especialmente nesse dia, ela estava com celular nas mãos e determinada a encontrar o site, era o celular que dei pra ela conversar no WhatsApp e ver os vídeos no Youtube, a princípio ela tinha resistido, mas agora já estava toda prosa com todas as informações encontradas no tal aparelho.

Achou o site e foi logo me mostrando, coisa linda! Né que tinha o livro “Bordados volta ao mundo” de Valquíria Campanelli, uma lindeza. Pense na felicidade dela, passou a vida inteira fazendo de tudo que era atividade artesanal, comidas (doces, bolos, salgados), costura, crochê, tricô, ponto-cruz, pinturas em tecidos, entre outros. Me dizia que naquele livro tinha bordados do mundo inteiro, vários países, além de explicar as histórias de como surgiu, como foi criado, e tudo isso ela amava descobrir. Toda a minha vida vi minha mãe lendo e buscando informações, apesar de ter deixado à escola quando ficou grávida de mim, só fez até a sétima série (hoje é o 8º ano). Mas, ela sempre opinava sobre tudo, nunca se mostrava ignorante sobre qualquer assunto, se não sabia buscava ler e se informar, sempre dizia que puxei a ela para gosta tanto de ler. Penso que é verdade!

Após um tempo chegou o livro, foi uma alegria, ela estava toda empolgada me mostrando o que queria fazer, e dizia não ter pressa, para ela o importante mesmo era conhecer as histórias, porque a saúde já não era boa para ficar horas a fio bordando ou criando, como fez durante muitos anos. Assim era minha mãe, uma curiosidade fora do comum, deixando para nós os vestígios do que é mais importante nessa vida, dizia sempre que a mente tinha que está ativa, e falava sempre sobre meu pai que não tinha muito o hábito da leitura, ele gostava mesmo era de escrever cartas...kkkkkk, ela dizia isso pra fazer graça com ele, quando eu ainda era jovem. Pensem na dupla perfeita, ela lia traduzia palavras pra ele, e ele escrevia cartas, e usava palavras bonitas que minha mãe ensinava, aliás, nossa casa era uma escola de aprendizagem com os dois, meu pai inquieto e sempre com a sua arte de serralheiro nas mãos e minha mãe também inquieta e criativa com seus bordados e livros, cada um ao seu modo tecia os fios da nossa história, tão simples e tão sólida, foi a forma de espalhar sementes para os que virão. Hoje, cada um de nós temos um pouquinho de cada um. 

Ao continuar minhas buscas abri gavetas, abri armários e cestos de bordado, lá encontrei linhas, agulhas, tecidos e vários bordados que não foram concluídos. São a prova de que a vida continua, de que ainda não acabou, é uma semelhança linda com o sem fim da vida que agora se abre para um amor encantado. Nesse movimento, vamos aprendendo que não precisa da presença física para fluir, vejo os olhos de meus pais, sinto o cheiro e o abraço, ouço suas vozes, sinto seu toque e sua benção a cada novo dia. Se alguém perguntar, como? Direi que estão dentro de nós, amores eternos. “Tempo! Não começa, não termina, é nunca, é sempre. ”

Hoje abro o livro, ainda novinho e vou saboreando as histórias do bordado, vou aprendendo com minha mãe sobre a humanidade que há em nós, aprendo que a minha volta ao mundo não acabou e precisamos somar todos os ensinamentos que a humanidade construiu para chegarmos ao final de uma história, para que seja cheia de dignidade e gratidão, como está sendo a de meus pais. Tecer os fios da vida!! Algo complexo e de uma imensa contradição, assim sigo entre amores e dores.

Foi assim que cheguei ao curso de garrafas decoradas, vi no celular de minha mãe, ela estava lendo e assistindo algumas técnicas no Youtube, vi e vou seguindo rumo a novos caminhos de sensibilidade e restauração, esse movimento vai restaurando a mim mesma, a arte leva-nos a contemplar a nossa humanidade, o que nos toca, o que nos envolve, nos move e nos sensibiliza. São capítulos de uma nova história. Obrigada mãe, obrigada pai!! Te amo mãezinha, te amo Paizinho.









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